E desde o início ele a amou verdadeiramente.
Edwin Lotbrohorst tinha dezenove anos quando viu Beca pela primeira vez.
Nenhum céu se abriu. Nenhuma estrela caiu.
Mas, dentro dele, algo se deslocou com a violência silenciosa de uma lua arrancada da própria órbita.
Beca parecia possuir massa própria no tecido invisível das coisas.
Sua presença curvava o espaço ao redor dele.
Quando ela sorria, havia ali uma espécie de gravidade.
Naquela época, Edwin ainda não sabia que dedicaria a vida à guerra, ao espaço profundo e às fraturas do multiverso.
Não sabia que vestiria armaduras de infiltração em planetas inimigos.
Não sabia que reptilianos de Khar-Zul marchariam contra a Terra.
Não sabia que seu nome seria registrado em arquivos militares e memoriais orbitais.
Ele sabia apenas uma coisa:
amava Beca.
E isso, para um rapaz de dezenove anos, já parecia maior que qualquer galáxia.
Eles ficaram juntos por algum tempo.
Tempo suficiente para que Edwin acreditasse que o universo havia demonstrado misericórdia.
Mas nunca houve promessa definitiva.
Nunca houve um futuro oficialmente desenhado.
Apenas encontros. Conversas. Silêncios. E aquela intimidade incerta entre duas pessoas que quase pertencem uma à outra.
Edwin a amava com intensidade física.
Era dor no peito. Era ausência antes mesmo da perda.
Como se alguma versão futura dele já soubesse que ela partiria.
Beca tornou-se seu primeiro paradoxo.
Anos depois, ao estudar os diários de seu antepassado, o físico Edwin Lotbrohorst — morto em 2026 após investigar ocultação estelar no Chile — encontrou uma anotação perturbadora:
“Algumas estrelas desaparecem não porque deixam de existir, mas porque algo imenso passa entre elas e nós.”
Edwin pensou em Beca.
Não porque ela tivesse desaparecido do mundo.
Mas porque algo se interpôs entre eles: escolhas, orgulho, medo, silêncio e tempo.
Principalmente o tempo.
Cada um seguiu seu caminho.
Mas Beca permaneceu dentro dele como luz antiga viajando por distâncias absurdas.
Enquanto os anos passavam, ela permanecia intacta em sua memória.
Edwin aprendeu ciência. Estratégia. Física relativística. Pilotagem orbital.
Mas nunca aprendeu a esquecê-la.
Em 2112, a humanidade já havia transformado a Lua em estaleiro, Marte em fronteira industrial e as luas de Júpiter em fortalezas militares.
Edwin era agora soldado da Força Expedicionária Terrestre.
Um operador de infiltração.
Treinado para atravessar linhas inimigas e sobreviver em atmosferas impossíveis.
A Terra estava em guerra.
Os reptilianos de Khar-Zul não eram monstros simplórios.
Eram uma civilização antiga, organizada e brutal.
Tinham matemática. Religião. Hierarquia. Tecnologia gravitacional.
E acreditavam que espécies mamíferas eram instáveis demais para herdar as estrelas.
A humanidade discordou.
E a discordância tornou-se guerra.
Edwin fazia parte da Unidade Ícaro, enviada ao planeta Thalassar-b.
Um mundo de oceanos negros e continentes vulcânicos.
Ali, os reptilianos haviam instalado um canhão de compressão gravitacional capaz de destruir a Terra.
A missão era simples apenas nos relatórios:
entrar. atravessar. destruir. sobreviver.
Acima deles voaria o lendário Grupo Chacal.
Uma elite de pilotos negros e latinos especializados em combate orbital extremo.
Seu comandante era Orion “Dreadlock” de Campos.
Orion pilotava como se desafiasse a própria física.
Antes do salto para Thalassar-b, Edwin observou as estrelas pela escotilha.
Tudo se movia: sistemas, poeira, fótons, destinos.
E ainda assim ele pensava em Beca.
Não lutava apenas pela Terra.
Lutava por tudo aquilo que ela despertara nele:
a certeza de que algumas coisas eram frágeis demais para serem entregues ao caos.
Quando o motor de dobra iniciou, o casco da nave gemeu.
O propulsor baseado nas teorias de Lotbrohorst manipulava cordas fundamentais, excitando dimensões compactadas para dobrar o espaço.
Por um instante, Edwin sentiu tudo vibrar.
Átomos. Memórias. Culpa. Saudade.
Então a realidade dobrou.
E, no breve intervalo entre um ponto do cosmos e outro, Edwin viu Beca.
Não como sonho.
Não como memória.
Como presença.
Ela estava em uma rua impossível, banhada por luz azulada, olhando para ele como alguém que sempre soube que ele chegaria tarde.
Múltiplas versões do mundo se sobrepunham ao redor dela.
Uma Terra em paz. Outra em ruínas. Outra onde ele jamais existira.
Beca sorriu.
E o salto terminou.
A nave emergiu sobre Thalassar-b em meio ao fogo.
Alarmes gritaram. Caças reptilianos mergulharam em formação espiral.
O Grupo Chacal avançou como tempestade.
— Chacais, formem lança. Ninguém toca na equipe de infiltração.
Edwin fechou os olhos por uma fração de segundo.
No peito, a memória de Beca ainda queimava.
Ele não sabia naquele momento que aquele amor seria a última coordenada de sua vida.
Mas o universo já sabia.
E esse amor o matou.