A chuva começou antes mesmo de os comboios chegarem.
Grossa. Violenta. Daquelas chuvas do interior que fazem a estrada desaparecer sob lama preta e transformam qualquer lugar em um cenário abandonado por Deus.
A Unidade Penal Temporária 47 ficava isolada no meio da Serra da Esperança, construída às pressas pelo Governo Federal após rebeliões simultâneas em três estados.
Oficialmente, era um centro emergencial de contenção para criminosos de alta periculosidade.
Extraoficialmente, era onde o Estado escondia homens que nem outros presos queriam por perto.
Traficantes.
Assassinos.
Canibais.
Líderes de facção.
Homens ligados a cultos ritualísticos.
E alguns detentos cujos crimes sequer apareciam nos registros oficiais.
A estrutura parecia um frigorífico militar abandonado: concreto cru, torres improvisadas, refletores antigos e quilômetros de mata fechada cercando tudo.
A única ligação com o mundo exterior era uma estrada estreita cortando a serra.
Foi por ela que chegaram os novos policiais penais federais.
Camila Duarte desceu da viatura puxando o capuz preto contra a chuva. Tinha trinta e dois anos, postura rígida e uma pequena cicatriz perto do maxilar.
Atrás dela veio Rafael Menezes.
Mais alto, barba curta, olhar cansado e mãos inquietas. Ex-integrante do BOPE antes de entrar para a Polícia Penal Federal.
O diretor da unidade os recebeu fumando debaixo da marquise.
— Bem-vindos ao inferno.
Ninguém respondeu.
O clima dentro da unidade parecia errado.
Pesado.
Os presos estavam agitados desde cedo.
Alguns rezavam compulsivamente.
Outros batiam nas grades sem parar.
Um homem tatuado começou a rir quando viu os novos agentes entrando.
— Vieram tarde demais...
Camila parou diante da cela.
— O que isso significa?
O homem ergueu lentamente os olhos.
Havia medo verdadeiro neles.
— Eles já sentiram o cheiro de sangue novo.
Mais ao fundo, outro preso repetia baixinho:
— A matilha voltou... a matilha voltou...
Naquela noite, a chuva piorou.
A energia caiu duas vezes.
Os rádios começaram a chiar sem motivo.
E então os uivos começaram.
Longos.
Distantes.
Profundos demais para serem cães.
O som vinha da floresta ao redor da unidade.
Rafael estava na torre leste quando ouviu o primeiro claramente.
Seu corpo inteiro gelou.
Aquilo não parecia animal.
Parecia humano tentando soar como bicho.
No bloco principal, os presos começaram a entrar em pânico.
Grades batiam.
Homens gritavam.
Alguns choravam.
— ELES VIERAM!
— NÃO APAGUEM AS LUZES!
— ABRAM AS CELAS!
Um detento ajoelhado rezava desesperadamente:
— Meu Deus... meu Deus...
Camila correu até a central de monitoramento.
As câmeras externas falhavam uma após a outra.
Em uma delas, algo enorme atravessou a mata em velocidade absurda.
Depois o sinal morreu.
BUM.
O primeiro impacto veio no portão externo.
O concreto tremeu.
Outro impacto.
Mais forte.
Metal retorcendo.
Os policiais se posicionaram imediatamente.
Fuzis erguidos.
Dedos nos gatilhos.
Então o portão explodiu.
A criatura entrou correndo sobre quatro patas.
Gigantesca.
Coberta de pelos negros encharcados.
Olhos amarelos brilhando na escuridão.
A mandíbula parecia capaz de arrancar uma cabeça inteira.
Um policial abriu fogo imediatamente.
Os disparos atravessaram o corpo da criatura.
Ela nem desacelerou.
Saltou sobre ele.
O grito terminou rápido.
Sangue cobriu a parede.
Outro lobisomem surgiu atrás.
Depois outro.
E outro.
Uma matilha inteira invadiu a unidade.
O caos começou instantaneamente.
Sirene.
Disparos.
Gritos.
Sangue.
As criaturas atravessavam corredores como predadores famintos.
Alguns presos começaram a rir.
Outros gritavam nomes.
— Eles vieram buscar os irmãos!
Camila viu algo impossível.
Certos detentos eram ignorados pela matilha.
Um homem conhecido como Carrasco abriu os braços quando um lobisomem enorme se aproximou.
A criatura apenas farejou seu rosto.
Como reconhecimento.
— Que porra é essa? — Rafael murmurou.
A resposta veio segundos depois.
Uma cela explodiu de dentro para fora.
O preso que estava lá começou a se transformar diante deles.
Os ossos estalaram.
A pele rasgou.
Pelos cresceram sob sangue.
Os gritos viraram rosnados.
Camila sentiu o estômago afundar.
— Tem infectados aqui dentro...
O novo lobisomem arrancou a garganta de um policial penal com uma mordida.
Agora havia monstros dentro e fora do presídio.
A matilha libertava criminosos específicos.
Traficantes.
Assassinos ritualísticos.
Homens ligados a cultos antigos.
Mas nem todos eram resgatados.
Alguns presos eram simplesmente devorados vivos.
Carrasco começou a rir enquanto corria pelo corredor.
— Eu disse que—
A criatura atrás dele arrancou metade de seu corpo antes que terminasse a frase.
Nem mesmo a matilha parecia obedecer completamente alguma lógica humana.
Rafael disparava sem parar enquanto recuava ao lado de Camila.
— Bala normal não funciona!
— Então atira na cabeça!
— JÁ TENTEI!
Um lobisomem atravessou uma porta lateral.
Camila descarregou o carregador inteiro.
A criatura caiu.
Por dois segundos.
Depois levantou novamente.
Mais irritada.
Ela puxou Rafael segundos antes de as garras destruírem a parede atrás deles.
O rádio chiou.
Uma voz desconhecida surgiu no meio da interferência.
— Sobreviventes na ala administrativa, mantenham posição.
Camila pegou o comunicador.
— Quem está falando?!
A resposta veio imediata.
Fria.
Profissional.
— D.C.A.N. em aproximação. Sessenta segundos.
— D.C.A.N.?!
Nenhuma resposta.
Então os helicópteros apareceram acima da tempestade.
Negros.
Sem identificação.
Grandes demais para operação comum.
Cordas desceram dos céus.
Homens armados invadiram o pátio do presídio.
Vestiam armaduras táticas escuras marcadas por símbolos religiosos gravados em prata.
Cruzes.
Selos antigos.
Trechos bíblicos.
Mas também carregavam armamento militar pesado.
Espingardas especiais.
Machados.
Fuzis adaptados.
Munição de prata.
Entre eles havia padres.
E pastores.
Todos armados.
Todos experientes.
O líder atravessou o corredor principal no instante em que um lobisomem avançava sobre ele.
O homem apenas ergueu a espingarda cromada e disparou.
A munição atravessou o crânio da criatura.
O corpo caiu morto imediatamente.
— Munição de prata consagrada — disse calmamente. — Sempre funciona.
Ele tinha cabelo grisalho, barba curta e olhos cansados demais para alguém ainda vivo.
No peito do colete havia um distintivo metálico:
D.C.A.N.
DIVISÃO DE CONTENÇÃO DE AMEAÇAS NÃO HUMANAS
GOVERNO FEDERAL
Atrás dele vieram mais operadores.
Um pastor enorme apareceu entre a fumaça.
Quase dois metros de altura.
Barba fechada.
Braços absurdamente musculosos.
Carregava um facão prateado preso nas costas e um rifle curto no peito.
Enquanto caminhava, recitava versículos bíblicos calmamente.
Como se aquilo fosse rotina.
— Guilherme! Corredor esquerdo! — gritou um operador.
O pastor apenas assentiu.
Quando um lobisomem saltou sobre ele, Guilherme segurou a criatura pelo pescoço no ar e afundou o facão de prata diretamente em seu peito.
O monstro caiu morto imediatamente.
Camila observava tudo sem conseguir compreender.
— Quem são vocês? — perguntou.
O homem grisalho recarregou a arma lentamente.
— D.C.A.N. Divisão de Contenção de Ameaças Não Humanas.
— Isso é militar?
— Entre outras coisas.
Outro operador incendiava corpos enquanto símbolos religiosos eram pintados nas paredes usando tinta vermelha.
O homem continuou:
— A D.C.A.N. foi criada através de um acordo internacional clandestino entre governos, setores militares e instituições religiosas após eventos classificados ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial.
Camila sentiu um frio atravessar o corpo.
— Que instituições?
O homem olhou diretamente para ela.
— Vaticano.
— Igrejas Ortodoxas.
— Denominações evangélicas.
— Ordens exorcistas.
— Inteligência militar.
Outro uivo ecoou na floresta.
Mais distante agora.
— O sobrenatural existe há muito mais tempo do que vocês imaginam — continuou ele. — E os governos descobriram cedo demais que esconder era mais fácil do que explicar.
Rafael observou operadores da D.C.A.N. executando criaturas com precisão cirúrgica.
Não pareciam fanáticos religiosos.
Pareciam soldados veteranos.
— Então vocês são uma força-tarefa mundial?
O homem assentiu lentamente.
— O grupo brasileiro é apenas uma divisão regional.
Ele apontou para o distintivo.
— Existem organizações semelhantes espalhadas pelo mundo inteiro.
Enquanto falava, helicópteros negros sobrevoavam a serra.
— Os Estados Unidos possuem a S.A.I.N.T.
— O Vaticano mantém a Custodia Obscura.
— A Rússia possui a Divisão Volk.
— Existem unidades privadas financiadas por governos europeus.
— E há organizações ainda mais antigas que os próprios países modernos.
Camila sentiu o estômago gelar.
— Quantas criaturas existem?
O homem ficou em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— Mais do que as pessoas suportariam saber.
Ao fundo, Guilherme esmagava o crânio de outro lobisomem usando a coronha metálica do rifle.
O pastor ergueu os olhos para Camila.
— O mundo não pertence só aos homens há muito tempo.
Outro operador passou carregando um corpo parcialmente transformado.
— Infectado eliminado!
O homem grisalho voltou a olhar para os dois policiais.
— A D.C.A.N. é formada por homens santos... e homens treinados para matar aquilo que não deveria existir.
Ele guardou a arma.
— Alguns vieram da Igreja.
— Outros das forças especiais.
— Outros perderam famílias para essas criaturas.
— E alguns simplesmente sobreviveram.
Explosões sacudiram a unidade.
Os transformados dentro das celas começavam a surgir.
Policiais infectados gritavam enquanto seus ossos quebravam.
A infecção se espalhava rápido.
A D.C.A.N. iniciou o protocolo final.
Execução de infectados.
Queima de corpos.
Destruição da estrutura.
Aquilo não era um resgate.
Era contenção.
Rafael observou caminhões blindados bloqueando completamente a estrada da serra enquanto homens queimavam cadáveres usando lança-chamas.
Parecia operação militar clandestina.
Porque era.
— O governo sabe disso? — Rafael perguntou.
O homem deu uma pequena risada sem humor.
— Filho... o governo criou isso.
A última parte da noite virou massacre absoluto.
Lobisomens invadindo corredores.
Operadores religiosos enfrentando criatura por criatura.
Presos fugindo mata adentro.
Alguns desaparecendo junto da matilha.
Outros sendo caçados pelos próprios monstros.
O diretor morreu tentando escapar sozinho.
Metade do rosto arrancada.
A central elétrica explodiu.
Toda a unidade mergulhou na escuridão.
Restaram apenas:
os disparos,
os gritos,
e os olhos amarelos brilhando no breu.
Camila e Rafael sobreviveram porque permaneceram juntos.
Porque ouviram as ordens da D.C.A.N.
Porque correram quando precisaram correr.
E porque Padre Estevão decidiu tirá-los vivos dali.
Ao amanhecer, a chuva havia parado.
A Serra da Esperança permanecia silenciosa.
Como se nada tivesse acontecido.
Helicópteros militares sobrevoavam a área.
O presídio queimava.
Nenhuma ambulância civil apareceu.
Nenhuma imprensa chegou.
Nenhuma investigação seria aberta.
A D.C.A.N. controlava tudo.
Camila observou homens queimando restos mutilados de lobisomens enquanto fumaça subia para o céu cinzento.
— Quantas vezes isso já aconteceu? — perguntou.
Padre Estevão tragou lentamente o cigarro.
— Mais do que você imagina.
Rafael encarou a floresta.
— E os que fugiram?
O padre permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Ainda estão lá fora.
Naquela manhã, receberam documentos pretos marcados com selo federal.
D.C.A.N.
NÍVEL DE SIGILO RUBRO
Sigilo absoluto.
Transferência compulsória.
E uma proposta.
A D.C.A.N. queria os dois.
Porque sobreviver àquela noite significava duas coisas:
Ou eram extremamente fortes.
Ou agora já pertenciam à guerra.
Antes de entrar no helicóptero, Camila olhou uma última vez para a mata.
Lá no fundo.
Entre as árvores.
Dois olhos amarelos observavam em silêncio.
Esperando.
Então desapareceram na escuridão da floresta.