NEXUS SINGULAR
Terminal de Dados
Saga Eco das Realidades - Capítulo 10

O Colapso do Multiverso

As rachaduras abertas pela guerra começam a unir realidades incompatíveis enquanto algo antigo atravessa o vazio entre os universos.

O Colapso do Multiverso - Nexus Singular

O universo não começou a quebrar de uma vez.

Começou discretamente.

Como todas as catástrofes verdadeiramente grandes.

Primeiro vieram os pequenos erros.

Relógios atrasando frações impossíveis de segundo.

Mensagens chegando antes de serem enviadas.

Pessoas jurando lembrar de acontecimentos que nunca existiram.

Pilotos relatando estrelas em posições incorretas.

Depois vieram os ecos.

Em Marte, uma equipe de mineração encontrou cadáveres usando uniformes humanos que pertenciam a modelos militares ainda não fabricados.

Na órbita de Europa, sensores registraram por 0,4 segundos uma segunda Lua ao lado de Júpiter — uma Lua inexistente em qualquer mapa astronômico conhecido.

Em Buenos Aires, milhares de pessoas ouviram simultaneamente uma transmissão de rádio feita em português por uma emissora que nunca existiu naquela realidade.

Os cientistas tentaram explicar.

Falharam.

Os governos tentaram esconder.

Fracassaram.

Porque o problema já não era local.

Era estrutural.

A realidade estava perdendo coesão.

Os primeiros modelos corretos surgiram nos laboratórios gravitacionais de Titã.

Segundo os cálculos, cada utilização do Propulsor Lotbrokhorst produzia microfraturas no tecido dimensional.

Durante décadas, o universo absorvera os danos naturalmente.

Mas a Guerra das Cordas alterara tudo.

Os reptilianos.

As armas gravitacionais.

As rupturas abertas em Thalassar-b.

O salto instável executado pelo Chacal.

Tudo junto começava a produzir um fenômeno irreversível:

Ressonância Multiversal Progressiva.

Em termos simples:

Os universos estavam deixando de permanecer separados.

As membranas dimensionais que mantinham cada realidade isolada começavam lentamente a vibrar na mesma frequência.

E quando frequências sincronizam…

Elas colapsam umas sobre as outras.

Edwin observava os relatórios em silêncio dentro da Argos enquanto a Frota Colonial mergulhava em estado de emergência absoluta.

As telas projetavam imagens impossíveis vindas de toda a galáxia humana.

Cidades parcialmente sobrepostas a outras versões de si mesmas.

Oceanos aparecendo onde deveriam existir desertos.

Pessoas desaparecendo no meio de ruas e retornando horas depois com memórias de vidas diferentes.

Uma mulher em Nairobi insistia ter passado vinte anos casada com um homem que nunca existira naquele universo.

Um menino em Quebec desenhou detalhadamente Saturno cercado por estruturas alienígenas que jamais foram construídas naquela realidade.

Em Tóquio, milhões viram por alguns segundos duas luas no céu.

O multiverso começava a sangrar através das rachaduras.

Mas o pior não era físico.

Era psicológico.

A mente humana não foi feita para sustentar múltiplas existências simultaneamente.

Os hospitais lotaram rapidamente.

Pessoas colapsavam tentando reconciliar memórias incompatíveis.

Algumas acordavam falando idiomas que nunca aprenderam.

Outras lembravam de filhos que jamais nasceram.

Muitos simplesmente enlouqueciam.

E alguns…

Lembravam demais.

Edwin era um deles.

Desde a ruptura, sua percepção começava lentamente a deteriorar-se.

Ou expandir-se.

Ele já não sabia distinguir.

Às vezes caminhava pelos corredores da nave e via tripulantes que não pertenciam àquela realidade.

Outras vezes observava rapidamente cicatrizes no casco da Argos que desapareciam segundos depois.

Certa madrugada, viu Orion passando pelo corredor usando um uniforme completamente diferente — negro, antigo, marcado por símbolos reptilianos.

Quando piscou…

O uniforme normal havia retornado.

Ninguém estava imune.

Nem mesmo o Chacal.

Os pilotos começaram a sofrer episódios de dessintonia temporal severa durante combate.

Alguns enxergavam segundos à frente.

Outros reagiam a ataques que ainda não haviam acontecido.

A vantagem tática inicial rapidamente tornou-se maldição neurológica.

Uma piloto chamada Camila Ortega começou a conversar diariamente com versões alternativas da própria mãe morta.

Outro piloto jurava ver cidades inteiras escondidas dentro das estrelas.

Dois desapareceram durante um salto curto e retornaram três horas depois biologicamente envelhecidos quase vinte anos.

Orion escondia os sintomas melhor que os outros.

Mas Edwin percebia.

Os olhos dele permaneciam cansados demais.

Como alguém escutando ruídos constantes vindos de muito longe.

Enquanto isso, as rupturas cresciam.

O espaço ao redor de Saturno tornou-se a primeira Zona de Instabilidade Permanente.

Ali, partes inteiras do cosmos começaram literalmente a sobrepor-se.

Frotas humanas avistavam destroços de batalhas que nunca ocorreram.

Planetas surgiam parcialmente duplicados.

Estrelas mudavam temporariamente de cor.

Então veio o evento de Vênus.

Durante exatamente sete minutos, toda a humanidade viu outro céu.

Não uma ilusão.

Não uma transmissão.

O próprio céu.

Constelações diferentes apareceram acima da Terra inteira simultaneamente.

Duas luas surgiram no horizonte.

E por alguns segundos…

Outra versão do planeta tornou-se visível sobreposta à original.

Milhões enlouqueceram naquele dia.

Religiões colapsaram.

Governos perderam controle.

Suicídios aumentaram exponencialmente.

Porque, pela primeira vez na história humana, tornou-se impossível negar a verdade:

O universo não era único.

E estava morrendo.

Os reptilianos começaram a recuar.

Não estrategicamente.

Instintivamente.

Edwin percebeu isso imediatamente nos padrões de movimentação inimiga.

Khar-Zul abandonava sistemas inteiros.

Bases eram evacuadas.

Portais gravitacionais estavam sendo fechados às pressas.

Eles não estavam vencendo.

Estavam fugindo.

Foi então que Edwin finalmente compreendeu o verdadeiro horror da Floresta Escura.

Civilizações não permaneciam silenciosas apenas por medo umas das outras.

Permaneciam silenciosas porque qualquer perturbação excessiva no tecido do universo acabava atraindo atenção.

E atenção, em escala cósmica…

Era fatal.

No interior da Argos, Edwin observava novamente as leituras gravitacionais quando sentiu o ambiente mudar.

O ar tornou-se mais pesado.

Os sons pareceram distantes.

As luzes oscilaram.

Então aconteceu.

A parede diante dele desapareceu por um instante.

Não destruída.

Substituída.

Ele viu outra versão da nave.

Mais escura.

Danificada.

Coberta por marcas de combate.

Tripulantes mortos presos aos assentos.

Sangue flutuando em gravidade parcial.

E no centro da cabine…

Ele mesmo.

Mais velho.

Muito mais velho.

Aquela versão levantou lentamente os olhos.

E falou:

— Nós demoramos demais.

A realidade voltou violentamente.

Edwin caiu no chão tentando respirar.

Alarmes começaram imediatamente.

— DISTORÇÃO DIMENSIONAL INTERNA!
— Múltiplas sobreposições detectadas na estrutura da nave!

Partes da Argos começaram literalmente a atravessar outras versões de si mesma.

Corredores apareciam onde não deveriam existir.

Portas levavam a compartimentos diferentes a cada abertura.

A nave estava começando a existir em mais de uma realidade simultaneamente.

E então…

O espaço do lado de fora abriu-se.

Não como portal.

Nem explosão.

Como ausência.

Uma região inteira do cosmos tornou-se negra demais.

Profunda demais.

Errada demais.

Os sensores falharam imediatamente tentando analisar aquilo.

Porque não detectavam matéria.

Nem energia.

Nem gravidade.

Detectavam fome.

Os Arquitetos do Vazio finalmente haviam começado a atravessar as rupturas.

Mesmo Orion permaneceu imóvel olhando para o abismo além da cabine.

Pela primeira vez desde o início da guerra…

Sem resposta.

Então Edwin compreendeu a verdade final:

A humanidade jamais esteve em guerra contra os reptilianos.

Nem os reptilianos estavam em guerra contra a humanidade.

Ambos pertenciam apenas a universos jovens demais para compreender que haviam despertado algo muito mais antigo que estrelas.

E agora…

O multiverso começava a colapsar sobre si mesmo.