O universo começou a morrer silenciosamente.
Não houve explosão final.
Nem estrelas apagando-se de uma vez.
O colapso aconteceu como uma doença neurológica em escala cósmica.
As leis da física começaram lentamente a esquecer de si mesmas.
Constantes gravitacionais variavam entre sistemas.
Planetas desapareciam por minutos inteiros.
Frotas atravessavam setores onde o tempo fluía em velocidades diferentes.
Em algumas regiões do espaço humano, a luz simplesmente deixava de existir.
E no centro de tudo…
As rupturas continuavam crescendo.
A Argos orbitava os destroços de uma estação abandonada próxima a Saturno enquanto o restante da Frota Colonial tentava organizar uma resistência que já não fazia sentido.
Não existia mais linha de frente.
Não existia mais território.
A própria realidade havia se tornado o campo de batalha.
Os reptilianos recuavam continuamente para regiões gravitacionalmente estáveis.
Seus portais estavam sendo selados.
Sistemas inteiros eram abandonados sem combate.
Edwin finalmente compreendia:
Khar-Zul não estava tentando vencer.
Estava tentando sobreviver ao inevitável.
Dentro da sala estratégica, hologramas tremeluziam instavelmente enquanto físicos, militares e inteligências artificiais discutiam probabilidades de contenção.
Nenhuma ultrapassava 3%.
— As rupturas atingiram massa crítica — disse a IA central. — O multiverso entrou em cascata ressonante irreversível.
Silêncio.
— Existe alguma solução? — perguntou Orion.
A resposta demorou mais do que qualquer máquina normalmente demoraria.
Como se até os sistemas hesitassem diante da conclusão.
— Sim.
Todos levantaram os olhos.
— O colapso pode ser interrompido através do fechamento da Fonte Primária de Ressonância.
Edwin sentiu o corpo gelar imediatamente.
Porque já sabia o que ouviria a seguir.
— O primeiro ponto de ruptura permanente foi gerado durante a ativação inicial do Propulsor Lotbrohorst no complexo ALMA, no Atacama, em 2026.
O silêncio tornou-se absoluto.
O observatório.
Seu ancestral.
A primeira rachadura.
Tudo começara ali.
A IA continuou:
— O colapso dimensional propaga-se através de ressonância causal acumulativa. Se a Fonte Primária for neutralizada antes da singularidade total, a estabilidade multiversal pode ser restaurada.
Orion cruzou os braços lentamente.
— Traduzindo.
A resposta veio fria.
— É necessário impedir Edwin Lotbrohorst de concluir o experimento original em 2026.
Edwin sentiu o universo perder peso ao redor dele.
Porque compreendeu imediatamente o custo.
Sem o experimento original…
Não existiria Propulsor Lotbrohorst.
Sem o propulsor…
A humanidade jamais alcançaria as estrelas.
Jamais encontraria os reptilianos.
Jamais iniciaria a Guerra das Cordas.
E talvez…
Jamais chegasse ao ponto onde Beca se perdera dele.
Mas havia outra consequência.
Muito pior.
As realidades abertas pela ruptura deixariam de existir.
Incluindo aquela.
O universo onde eles deram certo.
Edwin permaneceu imóvel.
Enquanto todos os outros discutiam estratégias, cálculos e probabilidades, ele já não ouvia mais nada.
Porque uma única pergunta havia tomado toda sua mente:
Se aquele universo desaparecesse…
Beca desapareceria junto?
Mais tarde, sozinho no compartimento de observação da nave, Edwin encarava Saturno através da enorme janela panorâmica.
Os anéis do planeta pareciam rachados pela instabilidade gravitacional.
Partes inteiras da luz estavam erradas.
O cosmos inteiro parecia cansado.
Então a realidade mudou novamente.
Sem violência.
Sem alarmes.
A cabine silenciosamente tornou-se aquela casa outra vez.
A chuva caía do lado de fora.
O cheiro de café ainda existia.
As crianças dormiam no sofá.
E Beca estava ali.
Como se sempre tivesse estado.
Ela observou Edwin por alguns segundos antes de falar.
— Você já sabe, não sabe?
Ele assentiu lentamente.
— Se eu fechar a ruptura…
A voz falhou.
Pela primeira vez desde o início da guerra.
— …esse lugar desaparece.
Beca não respondeu imediatamente.
Apenas caminhou lentamente até a janela.
Observando a chuva.
— Edwin… esse lugar talvez nunca tenha pertencido completamente a você.
A frase doeu mais do que qualquer ferimento físico que ele já sofrera.
Porque era verdade.
Aquele universo existia como possibilidade.
Como eco.
Como consequência improvável entre infinitas combinações de escolhas.
E ainda assim…
Parecia mais real do que qualquer guerra.
O outro Edwin apareceu silenciosamente na cozinha.
Mais velho.
Mais tranquilo.
A versão que teve coragem de ficar.
Ele aproximou-se devagar.
Sem hostilidade.
Sem orgulho.
— Você sabe por que esse universo existe?
Edwin permaneceu em silêncio.
— Porque em algum ponto… você amou alguém de verdade.
O silêncio entre eles tornou-se pesado.
Humano.
— Eu invejo você. — admitiu Edwin.
O outro sorriu levemente.
— Não deveria.
Ele olhou para Beca dormindo ao lado das crianças.
Depois voltou os olhos para Edwin.
— Você viu o universo inteiro quebrando. Eu nunca saí daqui. Nunca conheci as estrelas. Nunca entendi o tamanho real do cosmos.
Houve uma pausa curta.
— Mas você conheceu o amor… — disse Edwin.
O outro homem demorou para responder.
— E você conheceu o infinito.
A frase ficou suspensa no ar como uma verdade impossível de resolver.
Edwin percebeu então algo devastador:
Nenhuma versão dele tivera tudo.
Em um universo, encontrou as estrelas e perdeu Beca.
No outro, encontrou Beca e nunca tocou o cosmos.
Talvez fosse essa a tragédia inevitável da existência.
Toda escolha verdadeira exige perda.
As crianças começaram lentamente a desaparecer primeiro.
Como partículas dissolvendo-se em luz.
Depois partes da casa.
Depois os sons.
A ruptura estava piorando.
Beca aproximou-se dele uma última vez.
Tocou seu rosto suavemente.
— Você já decidiu.
Edwin fechou os olhos.
Porque sabia que ela estava certa.
Desde o início, talvez já soubesse.
Ele amava Beca.
Mas ainda amava a humanidade também.
Mesmo quebrada.
Mesmo pequena.
Mesmo assustada diante da floresta escura do cosmos.
Porque alguém precisava impedir que o universo inteiro morresse.
Quando abriu os olhos novamente, lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto dela.
Mas Beca sorria.
Não com tristeza.
Com compreensão.
— Em algum universo… nós demos certo.
Então o mundo começou a desaparecer.
A casa dissolveu-se lentamente em partículas luminosas.
A chuva deixou de existir.
O céu apagou-se.
O outro Edwin observou tudo calmamente.
Como alguém aceitando o fim inevitável de um sonho bonito demais para durar.
Antes de desaparecer completamente, ele olhou uma última vez para si mesmo.
E disse:
— Desta vez… tenha coragem de partir.
Então tudo virou luz.
Edwin despertou sozinho na Argos.
Saturno continuava diante dele.
Frio.
Imenso.
Real.
Os alarmes ainda gritavam pelos corredores.
O multiverso ainda colapsava.
Os Arquitetos do Vazio ainda atravessavam as rupturas.
Mas agora…
Ele finalmente sabia o que precisava fazer.
E pela primeira vez desde que conheceu Beca aos dezenove anos…
Edwin compreendeu que amar alguém verdadeiramente também significava aceitar perdê-la.