NEXUS SINGULAR
Terminal de Dados
Saga Eco das Realidades - Capítulo 7

Ruptura de Realidade

Um salto impossível dentro da distorção salva a Unidade Ícaro, mas rasga o tecido do multiverso e revela algo antigo observando do outro lado.

Ruptura de Realidade - Nexus Singular

O erro começou como uma diferença insignificante.

0,003 segundos de desalinhamento gravitacional.

Pequeno demais para alarmar os computadores da Frota. Pequeno demais para alterar os cálculos de navegação em condições normais. Pequeno demais para qualquer ser humano perceber.

Mas o universo não mede consequências pela escala dos erros.

Mede pela profundidade das rachaduras que eles criam.

A nave de extração da Unidade Ícaro deixava a órbita de Thalassar-b sob perseguição direta reptiliana quando Orion “Dreadlock” de Campos tomou a decisão que salvaria a equipe.

E condenaria algo muito maior.

— Se continuarmos em rota convencional, eles nos alcançam antes do corredor lunar — disse uma das IAs táticas.
— Probabilidade de sobrevivência?
— Onze por cento.

Silêncio.

Orion observou os dados projetados no visor neural. Atrás deles, os sensores mostravam múltiplas assinaturas reptilianas emergindo de microfendas gravitacionais abertas ao redor do planeta.

Não estavam apenas perseguindo.

Estavam prevendo.

Como se soubessem para onde os humanos correriam antes mesmo da decisão ser tomada.

Então Orion fez algo que nenhum protocolo autorizava.

— Preparar salto curto dentro da distorção.

O canal ficou mudo.

Até a IA demorou 0,8 segundos para responder.

— Manobra impossível. O espaço local está instável.
— Eu sei.
— Existe risco de ruptura dimensional.
— Eu sei.
— Existe risco de…
— EU SEI.

Edwin levantou os olhos imediatamente.

Aquilo era insanidade.

Saltos de compressão exigiam estabilidade matemática mínima entre origem e destino. Executar uma dobra gravitacional dentro de uma área já afetada por colapso dimensional equivalia a acender fogo dentro de um reator aberto.

A física deixava de ser previsível.

E ainda assim…

Era a única chance.

— Dreadlock… — Edwin falou no canal privado. — Se fizer isso, as cordas podem entrar em ressonância cruzada.

Orion permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu calmamente:

— Já estão entrando.

A nave inteira tremeu.

Motores de compressão começaram a ativar.

Não suavemente.

Violentamente.

Edwin sentiu imediatamente.

O Propulsor Lotbrokhorst não estava alinhando espaço.

Estava forçando realidade.

Os sensores enlouqueceram.

Coordenadas deixaram de existir em sequência lógica.

Distâncias começaram a variar.

Partes internas da nave apareciam momentaneamente duplicadas.

Um operador viu a si mesmo sentado do outro lado da cabine.

Outro começou a vomitar sangue antes mesmo do salto ocorrer.

— Travamento gravitacional em colapso!
— Campo de contenção falhando!
— Estrutura causal instável!

E então…

A travessia começou.

Não houve aceleração.

Nem luz.

Nem sensação de movimento.

Houve fragmentação.

Edwin viu o universo partir-se ao redor deles.

Não metaforicamente.

Literalmente.

O espaço transformou-se em milhares de superfícies transparentes sobrepostas, como espelhos quebrados flutuando no vazio. Cada fragmento mostrava uma realidade diferente.

Algumas reconhecíveis.

Outras impossíveis.

Ele viu uma Terra morta.

Oceanos evaporados.

Continentes negros.

Satélites caindo do céu.

Viu uma humanidade dominada pelos reptilianos.

Cidades cobertas por estruturas biomecânicas gigantescas.

Seres humanos caminhando sem expressão sob céus artificiais.

Viu Orion morto.

Viu Orion velho.

Viu Orion usando uniforme reptiliano.

E então viu Beca.

Não uma.

Centenas.

Em uma realidade ela nunca o conheceu.

Em outra morreu jovem.

Em outra caminhava ao lado dele em uma cidade iluminada por luas artificiais.

Em outra…

Ela o odiava.

As versões surgiam e desapareciam rápido demais para serem compreendidas completamente.

O multiverso abria-se diante dele como uma ferida infinita.

Edwin tentou respirar.

Não conseguiu.

Porque naquele lugar entre realidades…

Não existia ar.

Nem tempo.

Nem direção.

Existiam apenas possibilidades.

Então ele percebeu algo pior.

As realidades não estavam apenas sendo vistas.

Estavam começando a tocar-se.

Partes de universos diferentes colidiam momentaneamente.

Pessoas apareciam onde não deveriam existir.

Estruturas atravessavam outras estruturas.

Fragmentos inteiros de causalidade misturavam-se.

A ruptura estava crescendo.

— DESLIGUEM O PROPULSOR! — Edwin gritou.

Mas já era tarde.

A nave inteira entrou em ressonância.

As cordas fundamentais do espaço-tempo vibravam fora de sincronização.

E algo respondeu.

No centro da ruptura surgiu uma presença.

Colossal.

Antiga.

Sem forma fixa.

Não parecia viva no sentido biológico.

Parecia estrutural.

Como se fosse parte da arquitetura oculta do universo.

Edwin sentiu imediatamente.

Aquilo não era reptiliano.

Os Arquitetos do Vazio.

As entidades mencionadas nos registros proibidos encontrados pelo Chacal.

Seres que habitavam singularidades e oceanos quânticos antes mesmo da formação do Sistema Solar.

E pela primeira vez…

Uma delas parecia olhar diretamente para ele.

A mente de Edwin entrou em colapso parcial.

Informações demais.

Escalas demais.

Ele sentiu memórias que não eram suas atravessarem sua consciência.

Vidas inteiras.

Guerras.

Civilizações desaparecendo como poeira cósmica.

Universos sendo utilizados como matéria-prima para estruturas incompreensíveis.

E no meio daquele horror absoluto…

Uma imagem simples.

Beca sorrindo.

Aquilo o manteve humano.

— EDWIN!

A voz veio distante.

Orion.

O comandante do Chacal lutava manualmente contra os controles enquanto a nave literalmente desmontava-se entre frequências dimensionais.

Partes da fuselagem desapareciam e retornavam.

Alarmes gritavam em idiomas mortos do sistema operacional.

— Eu preciso de uma solução AGORA!

Edwin forçou a própria mente a funcionar.

Pensar.

Raciocinar.

Então compreendeu.

O problema não era o salto.

Era a ressonância emocional.

O Propulsor Lotbrokhorst respondia parcialmente à consciência humana.

Sempre respondera.

As emoções funcionavam como interferência involuntária sobre campos quânticos extremamente sensíveis.

E naquele momento…

O medo coletivo da tripulação estava amplificando a ruptura.

— Todo mundo escuta! — Edwin gritou. — Foquem em uma única memória!
— O quê?!
— AGORA!

Ninguém entendeu.

Mas obedeceram.

Edwin fechou os olhos.

E pensou em Beca.

Não na dor.

Não na perda.

Mas no primeiro momento.

No primeiro sorriso.

Na primeira vez em que acreditou que o universo talvez fosse gentil.

Algo mudou.

As vibrações começaram a estabilizar.

As cordas quânticas entraram lentamente em sincronização.

A ruptura diminuiu.

Os fragmentos de realidade começaram a afastar-se novamente.

Mas antes do colapso final…

Edwin viu uma última coisa.

Uma versão dele mesmo.

Mais velho.

Cansado.

Usando uma armadura diferente.

E aquela versão disse apenas:

— Não deixe eles abrirem a Porta.

Então tudo desapareceu.

A nave emergiu violentamente no espaço normal.

Silêncio.

Os sistemas reiniciaram lentamente.

A tripulação permanecia viva.

Fisicamente.

Mas ninguém saiu intacto.

Um operador havia esquecido o próprio nome.

Outro não lembrava da infância.

Uma das pilotos do Chacal insistia que havia passado dezessete anos presa dentro da ruptura, embora apenas segundos tivessem transcorrido.

Orion permaneceu imóvel diante do painel destruído.

Respirando pesadamente.

— Relatório… — alguém sussurrou.

Edwin olhou para o vazio estrelado além da cabine.

As estrelas pareciam normais.

Mas ele sabia agora que aquilo era ilusão.

O universo não era sólido.

Era frágil.

E eles haviam acabado de rasgá-lo.

Pela primeira vez desde o início da guerra, Edwin compreendeu algo aterrador:

Os reptilianos talvez não fossem os vilões centrais daquela história.

Talvez fossem apenas uma civilização tentando sobreviver àquilo que existia além das rachaduras.

E agora…

A ruptura havia começado.