Depois da ruptura, ninguém voltou inteiro.
A nave permaneceu em silêncio por quase seis horas após emergir no espaço normal. Nem mesmo os sistemas automáticos ousavam interromper a quietude pesada que dominava a tripulação.
Era como se todos tivessem retornado trazendo algo invisível consigo.
Ou deixando algo para trás.
Edwin permanecia sozinho no compartimento de observação da nave.
Do lado de fora, estrelas atravessavam lentamente a escuridão como lanternas distantes em um oceano sem fim.
Pela primeira vez em muito tempo, não havia explosões.
Não havia alarmes.
Não havia ordens militares ecoando pelos corredores metálicos.
Apenas silêncio.
Um silêncio tão profundo que parecia antigo.
A ruptura deixara resíduos.
Os médicos chamavam de Eco Dimensional Residual. Pequenos lapsos perceptivos causados pela exposição prolongada às fraturas entre universos.
A maioria dos soldados via vultos.
Alguns ouviam vozes.
Outros reviviam memórias.
Mas Edwin sabia que o que estava acontecendo com ele era diferente.
Porque aquilo parecia real demais.
A luz da cabine piscou suavemente.
Por um instante, o vidro diante dele deixou de refletir o interior da nave.
E mostrou outra coisa.
Uma casa.
Não grandiosa.
Nem futurista.
Uma casa simples.
Quente.
Humana.
Edwin levantou-se lentamente.
O coração acelerou.
Não havia lógica naquilo. Nenhuma explicação física aceitável.
Ainda assim, ele deu um passo à frente.
E o universo mudou ao redor dele.
O cheiro veio primeiro.
Café.
Chuva recente.
Madeira.
Depois o som.
Risadas.
Distantes.
Vivas.
Então ele percebeu onde estava.
Era Terra.
Mas não a dele.
O céu era azul.
Sem drones militares.
Sem satélites de defesa cruzando a atmosfera.
Sem cicatrizes orbitais.
Havia pássaros.
Edwin não via pássaros reais desde a adolescência.
Ele caminhou lentamente pela rua silenciosa.
As casas eram pequenas, cercadas por árvores antigas.
Crianças brincavam em bicicletas no fim da rua.
Um cachorro dormia próximo a uma varanda iluminada pelo fim da tarde.
Tudo parecia absurdamente… normal.
E justamente por isso, irreal.
Então ele a viu.
Beca.
Ela estava sentada na varanda.
Os cabelos levemente presos.
Mais madura.
Mais serena.
Mas ainda ela.
Edwin sentiu algo partir-se dentro dele.
Não dor.
Nem exatamente tristeza.
Era algo mais delicado.
A percepção brutal de uma vida que poderia ter existido.
Beca levantou os olhos.
E sorriu.
Não surpresa.
Como se o conhecesse desde sempre.
— Você demorou. — ela disse suavemente.
A voz dela era exatamente como ele lembrava.
Talvez mais calma.
Talvez mais feliz.
Edwin tentou responder.
Não conseguiu.
Então ouviu passos atrás dela.
E o viu.
A outra versão de si mesmo.
Mais velho.
Alguns fios grisalhos próximos às têmporas.
Sem cicatrizes de combate.
Sem o peso constante nos olhos.
Mas ainda Edwin.
O outro carregava duas canecas de café e uma tranquilidade que o verdadeiro Edwin mal reconheceu como humana.
Ele olhou diretamente para si mesmo.
E sorriu levemente.
Sem hostilidade.
Sem medo.
Como alguém olhando para um irmão perdido.
— Acho que você finalmente encontrou o caminho.
Edwin sentiu um desconforto estranho.
Porque aquele homem era tudo que ele não conseguiu ser.
Alguém que ficou.
Alguém que não fugiu.
Alguém que teve coragem de amar sem transformar aquilo em ausência.
Crianças correram pela sala atrás deles.
Duas.
Uma menina e um garoto.
O menino tinha os olhos de Beca.
A menina tinha os dele.
Edwin precisou desviar o olhar.
— Eles são…?
Sua voz falhou.
Beca sorriu novamente.
Daquele jeito simples que sempre desmontava qualquer defesa emocional dele.
— São nossos.
O universo inteiro pareceu silencioso naquele instante.
Não havia guerra ali.
Nenhuma invasão reptiliana.
Nenhuma ruptura dimensional.
Nenhuma Unidade Ícaro.
Nenhum Grupo Chacal cruzando céus em chamas.
Apenas vida.
Uma vida pequena diante do cosmos.
Mas suficiente.
O outro Edwin aproximou-se lentamente.
— Você ainda carrega culpa demais.
— Você não entende o que aconteceu.
— Entendo mais do que você imagina.
Houve um breve silêncio.
O vento atravessava as árvores da rua.
Algumas folhas caíram lentamente sobre a varanda.
— Em quantos universos nós falhamos? — perguntou Edwin.
O outro sorriu de maneira triste.
— Na maioria.
Aquilo deveria doer.
Mas estranhamente não doeu.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, Edwin percebeu algo importante:
O universo não era cruel o tempo todo.
Em algum lugar entre infinitas possibilidades…
Eles deram certo.
Beca aproximou-se.
Parou diante dele.
Tão perto que Edwin conseguia ouvir sua respiração.
— Você precisa parar de sobreviver como se fosse uma punição.
Ele fechou os olhos.
Por um instante, permitiu-se esquecer a guerra.
Esquecer o espaço.
Esquecer os monstros além das estrelas.
Permitiu-se apenas existir.
Quando abriu os olhos novamente, já era noite.
As crianças dormiam no sofá.
A chuva começava a cair do lado de fora.
O outro Edwin preparava café na cozinha enquanto Beca observava a tempestade pela janela.
Tudo parecia absurdamente simples.
E talvez fosse justamente isso que tornasse aquele universo tão impossível.
— Você vai voltar, não vai? — perguntou ela sem olhar para trás.
Edwin demorou para responder.
— Eu acho que não pertenço aqui.
Beca virou-se lentamente.
Os olhos dela carregavam uma tristeza calma.
Não desesperada.
Apenas inevitável.
— Talvez ninguém pertença completamente a lugar nenhum, Edwin.
O silêncio entre os dois não era desconfortável.
Era humano.
Lá fora, trovões cruzaram o céu distante.
Por um momento, Edwin teve medo de que a ruptura reabrisse.
De que a guerra invadisse aquele lugar também.
Mas não aconteceu.
E pela primeira vez desde o início de tudo…
Ele sorriu.
De verdade.
Pouco antes do amanhecer, o outro Edwin caminhou até ele.
— Existe uma diferença entre nós.
— Qual?
O homem olhou para Beca dormindo no sofá ao lado das crianças.
Depois respondeu:
— Eu tive coragem de ficar.
A frase atingiu Edwin mais profundamente que qualquer ferimento da guerra.
Porque sabia que era verdade.
Quando a realidade começou lentamente a dissolver-se ao redor dele, Edwin não resistiu.
Não tentou permanecer.
Talvez porque entendesse que aquele lugar não existia para ser habitado.
Apenas lembrado.
A última coisa que viu foi Beca olhando para ele pela varanda enquanto o universo desaparecia lentamente em luz branca.
Sem lágrimas.
Sem despedidas dramáticas.
Apenas um olhar silencioso entre duas versões de vidas que se tocaram tarde demais.
Então ele voltou.
Os alarmes da nave reapareceram.
O metal frio da cabine retornou.
As estrelas da guerra estavam novamente diante dele.
Mas algo havia mudado.
Pela primeira vez desde o início da missão…
Edwin já não lutava apenas para sobreviver.
Agora ele lutava porque sabia exatamente o que estava tentando proteger.